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24 de Fevereiro de 2020
2º Grau

Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul TJ-RS - Apelação Cível : AC 70075932012 RS - Inteiro Teor

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Inteiro Teor

TJ-RS_AC_70075932012_6ce96.doc
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SFVC

Nº 70075932012 (Nº CNJ: 0357316-92.2017.8.21.7000)

2017/Cível

AÇÃO PARA APURAÇÃO DE IRREGULARIDADES EM ENTIDADE DE ATENDIMENTO. FASE. CASE. ILETIGIMIDADE DO ESTADO PARA FIGURAR NO POLO PASSIVO. INOCORRÊNCIA. NULIDADE DA SENTENÇA. DESCABIMENTO. 1. Merece ser afastado o argumento de nulidade da sentença quer por ofensa ao art. 492 do NCPC, quer por cerceamento de defesa, eis que a sentença enfrentou todas as questões, não havendo falar em sentença genérica, assim como os atos processuais foram todos realizados de acordo com os ditames da lei processual. 2. O Estado tem legitimidade para figurar no polo passivo da presente ação eis que a Fundação de Atendimento Socio-Educativo embora se tratando de pessoa jurídica de direito privado é mantida pelo Poder Público, no caso o Estado. 3. Somente com a devida organização dos serviços públicos capazes de garantir os direitos humanos, impedindo-se toda e qualquer conduta violadora, é que se pode almejar que os adolescentes com desvio de conduta possam compreender o sentido da ética e da solidariedade social, compreendendo também o sentido da cidadania. 4. Havendo indicativo de ocorrência de graves irregularidades na instituição responsável pelo atendimento a adolescentes, imperiosa a cabal apuração dos fatos e a adoção das providências necessárias para a correção do rumo. Recurso do Estado desprovido e provido em parte da FASE.

Apelação Cível

Sétima Câmara Cível

Nº 70075932012

(Nº CNJ: 0357316-92.2017.8.21.7000)

Comarca de Santa Maria

E.R.G.S.

..

001 - APELANTE

F.A.S.E.

..

002 - APELANTE

M.P.

..

APELADO

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Sétima Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, afastar as preliminares, negar provimento ao recurso do Estado e dar parcial provimento ao recurso da Fundação de Atendimento Socio-Educativa - FASE.

Custas na forma da lei.

Participaram do julgamento, além do signatário, as eminentes Senhoras Des.ª Liselena Schifino Robles Ribeiro e Des.ª Sandra Brisolara Medeiros.

Porto Alegre, 28 de março de 2018.

DES. SÉRGIO FERNANDO DE VASCONCELLOS CHAVES,

Relator.

RELATÓRIO

Des. Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves (RELATOR)

Trata-se da irresignação do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e da FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO - FASE com a r. sentença que julgou procedente a ação de apuração de irregularidades em entidade de atendimento, ocorridas no Centro de Atendimento Socioeducativo de Santa Maria, que lhes move o MINISTÉRIO PÚBLICO, para o fim de: (1) declarar existentes as irregularidades apontadas na exordial; (2) fixar o prazo de trinta (30) dias para que a FASE/RS comprove, documentalmente, ponto a ponto, as medidas que foram e estão sendo adotadas para sanar as irregularidades noticiadas na exordial existentes no CASE/SM, quais sejam: a) inobservância aos direitos e garantias de que são titulares os adolescentes (art. 94, inc. I, do ECA); b) ausência de atendimento personalizado, em pequenas unidades e grupos reduzidos (art. 94, inc. III, do ECA); c) precariedade das instalações físicas do CASE/SM, notadamente acerca da habitabilidade, higiene, salubridade, refeitório e equipamentos de segurança (art. 94, inc. VII do ECA); d) inexistência de programa de atendimento específico para adolescentes portadores de transtornos ou deficiência mental (art. 94, inc. IX do ECA e Arts. 60 e 64, da Lei nº 12.594/2012); e) insuficiência de atividades culturais, esporte e de lazer (art. 94, inc. XI do ECA); f) ausência de gestão democrática e participativa como assembleias e grupos de trabalho propostas pelo SINASE (Lei nº 12.594/2012); g) não realização de levantamento periódico de reincidência e causas determinantes (art. 25, da Lei 12.594/2012); h) insuficiência de recursos humanos e inexistência de processos de formação continuada dos servidores quanto à capacitação (art. 94, inciso IX, do ECA, art. 11, incisos IV e VI, e 12, da Lei 12.594/2012); i) inobservância do disposto na legislação quanto à elaboração e execução dos Planos Individuais de Atendimento - PIA. (art. 54, da Lei 12.594/2012); j) insuficiência de estratégia para gestão de conflitos (arts. 15, inciso IV, e 35, inciso III, da Lei nº 12.594/2012); k) inexistência de visitas íntimas (art. 68, da Lei nº 12.594/2012) e l) imposição de sanção disciplinar sem a instauração de processo disciplinar e sem observar a ampla defesa e o contraditório (art. 71, inciso II, e 74, da Lei nº 12.594/2012); e, (3) fixar o prazo de doze meses para que sejam sanadas as irregularidades ainda existentes, devendo a Unidade se adequar às normas de referência do SINASE e doECAA, sob pena de suspensão das atividades e/ou fechamento parcial ou total, bem como a interdição do respectivo programa, com a remoção dos adolescentes/jovens acolhidos, conforme preceitua o artigo977, inciso I, alínea 'd', c/c o artigo1911,§ 3ºº, doECAA.

Sustenta o ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, preliminarmente, que o procedimento adotado é nulo, pois o escopo da ação era outro que não os previstos pelo ECA, principalmente pelos seus arts. 191 e 193. Alega ser parte ilegítima para figurar no pólo passivo da lide, visto que a FASE detém personalidade jurídica própria, com autonomia administrativa e financeira. Diz, ainda, que a sentença é genérica, pois não especifica com clareza a forma como devem ser cumpridas as obrigações ali impostas. No mérito, aduz, no que se refere à reeducação dos menores infratores, deve encontrar soluções adequadas para os problemas de todas as unidades educacionais existentes no Estado, o que faz com que tenha de realizar escolhas e eleger os estabelecimentos que precisam de atenção com maior urgência, o que não pode ser o caso da Instituição objeto da lide. Diz que o feito envolve mérito administrativo, cabendo somente ao administrador da FASE solucionar os problemas. Destaca que se houver a interdição do CASE, alguma outra instituição, talvez em piores condições, terá de acolher os menores que deverão ser removidos. Pretende seja decretada a nulidade do feito ou, caso superadas as preliminares, seja absolvido e isentado das obrigações que lhe foram impostas, especialmente a de realizar programas determinados na sentença e a contratação de profissionais para o CASE, salvo se assim entender o administrador, ou, subsidiariamente, seja afastada a possibilidade de interditar a CASE/SM e de determinar a remoção dos jovens acolhidos para outras unidades. Pede o provimento do recurso.

Sustenta a FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO - FASE, preliminarmente, que a sentença é nula por cerceamento de defesa, uma vez que não pôde comprovar suas ações em resposta ao despacho judicial de fls. 1.052, o qual sequer chegou a ser publicado via nota de expediente. Diz que o feito foi sentenciado levando-se em conta a realidade do ano de 2015. Afirma, ainda, que o rito processual adotado foi incorreto, posto que o art. 191 e seguintes do ECA não prevêem como sanção obrigação de fazer, mas sim a proteção dos direitos dos internos. No mérito, alega que as dimensões arquitetônicas trazidas pelo Sinase são tão somente diretrizes e referências que servem como base para as instalações onde jovens cumprem medida socioeducativa. Destaca que estas normas não são de natureza impositiva ou punitiva e que são trazidas apenas como um documento com parâmetros, objetivos e metas, sendo assim não é razoável que se exija a adequação das unidades antigas construídas antes dessa suposta normatização. Cita dispositivos legais aplicáveis ao caso. Diz que as resoluções do CONANDA não podem restringir direitos ou impor obrigações a entes públicos. Aduz que nunca foi omissa na busca de recursos para melhorar o serviço que presta à sociedade e diante da impossibilidade de construir novas unidades, por falta de recursos, constantemente promove reformas e melhorias em suas unidades, sempre dependendo de recursos financeiros advindos do Estado. Discorre sobre as alegadas inadequações da CASE/SM, sustentando que as medidas para correção da unidade foram atendidas parcial ou totalmente. Pretende seja declarada nula a sentença pelo cerceamento de defesa ou pelo rito processual, ou, caso superadas as preliminares, seja julgada improcedente, ou, alternativamente, parcialmente procedente a ação. Pede o provimento do recurso.

Intimado, o agente ministerial apresentou contrarrazões aos dois recursos, pugnando pelo desprovimento do recurso interposto pelo ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, e pelo parcial provimento da apelação da FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO – FASE, afastando-se a nulidade e a preliminar invocadas, confirmando a condenação no tange à obrigação de afastamento das irregularidades reconhecidas na sentença nos tópicos A, B, D, E, F e G, bem como parte das irregularidades reconhecidas nos tópicos C e I, no prazo estabelecido.

Com vista dos autos, a douta Procuradoria de Justiça lançou parecer opinando pelo conhecimento dos recursos, pelo desprovimento da apelação do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e pelo parcial provimento do recurso da FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO – FASE.

É o relatório.

VOTOS

Des. Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves (RELATOR)

Estou negando provimento ao recurso do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e acolhendo, em parte, o pleito recursal da FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO – FASE.

Com relação às preliminares argüidas nos dois recursos, friso que não procedem, pois a douta sentença focalizou precisamente as questões expostas na peça exordial e enfrentou adequadamente todas as questões jurídicas postas nos autos.

Além disso, o ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL tem legitimidade para figurar no pólo passivo pois, embora a FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO – FASE seja pessoa jurídica de direito privado, ela presta serviço público e é mantida pelo Poder Público, no caso o ESTADO.

Afasto, assim, as preliminares argüidas.

No mérito, inicio destacando o excelente trabalho desenvolvido pelo ilustre Promotor de Justiça Antônio Augusto Ramos de Moraes, digno de louvor, observando que as investigações constantes no Expediente Administrativo nº 0864.00043/2009 revelam as mazelas existentes no Centro de Atendimento Sócio-Educativo de Santa Maria, que é órgão vinculado à FASE-RS – Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul, que decorrem da carência de recursos materiais e pessoais e que conduzem a uma quase inépcia das políticas destinadas à recuperação dos adolescentes, havendo fortes indicativos de indisciplina destes e de episódios de violência dos monitores.

Certamente a realidade estampada no procedimento instaurado pelo diligente órgão ministerial não difere muito da que se pode encontrar na grande maioria dos estabelecimentos congêneres, inclusive na própria Capital do Estado.

No entanto, não se justifica que seja adotada uma conduta complacente com tais irregularidades, quando se dispõe de uma legislação avançadíssima, de primeiro mundo, tendente à efetiva recuperação dos adolescentes em situação de risco, como são, na verdade, aqueles que são submetidos às atividades da CASE de Santa Maria - e em todas as demais -, que devem ser examinadas sob o prisma da proteção integral.

Observo, pois, que é preciso ter em mira que somente com a devida organização dos serviços públicos capazes de garantir os direitos humanos, impedindo-se condutas violadoras, é que se pode almejar que os adolescentes com desvio de conduta possam compreender o sentido da ética e da solidariedade social, introjetando os princípios da cidadania.

Não é por outra razão, aliás, que o art. 227 da Constituição Federal estabelece que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-lo a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Para que se tenha a possibilidade de afirmar este ideário posto na Carta Magna, é preciso consciência social, coragem, muito trabalho e contar com a sensibilidade dos administradores responsáveis pela gestão das verbas públicas, elaborando programas amplos e adequados, capazes de dar o suporte material e pessoal às instituições que tem como meta a proteção e a reeducação dos jovens em situação de risco.

Havendo indicativo de ocorrência de graves irregularidades na instituição responsável pelo abrigamento de adolescentes, imperiosa a cabal apuração dos fatos e a adoção de todas as providências necessárias para a devida responsabilização administrativa (ou até penal) e a correção do rumo.

Com esse enfoque, estou acolhendo o parecer ministerial, de lavra da ilustre Procuradora de Justiça Denise Maria Duro, que adoto também como razão de decidir e peço vênia para transcrever, in verbis:

PRELIMINARMENTE

- Do rito adotado

Inicialmente, o Estado do Rio Grande do Sul e a Fundação de Atendimento Socioeducativo suscitam a nulidade do feito, referindo que o procedimento previsto nos artigos 191 a 193 do Estatuto da Criança e do Adolescente não é adequado para fins de condenar o réu em obrigações de fazer, na forma como a sentença dispôs.

A irresignação não merece prosperar neste ponto.

O Estatuto da Criança e do Adolescente disciplina que a remoção das irregularidades enseja a extinção do feito, sem julgamento de mérito, consoante o artigo 193, § 3º, do diploma legal em voga. Por conseguinte, caso o Ente público não adote as providências a fim de sanar as irregularidades, o rito previsto nos dispositivos em comento tem o condão de condenar o demandado em obrigações de fazer.

Por oportuno, salienta-se que o Douto Promotor de Justiça, Dr. Antônio Augusto Ramos de Moraes, analisou com propriedade a alegação trazida pelos recorrentes, cujo conteúdo se pede vênia para transcrever (fls. 1100-1105v e 1144-1154v):

No particular, com a máxima vênia do DD. Procurador do Estado, não existe qualquer sentido em ajuizar um procedimento que visa apenas reconhecer as irregularidades em programa de execução de medida socioeducativa, relegando para um segundo momento a possibilidade de novamente demandar o ESTADO e a FASE para que ajustem as irregularidades reconhecidas. [...]

A dicotomia processo conhecimento versus processo de execução que permeou o Código de Processo Civil de 1973 foi superada inclusive nas demandas de natureza cível, destacando-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, já havia apontado para uma agilização do procedimento, atentando inclusive para a natureza dos direitos em análise, pois não se pode esperar tão longa tramitação para que sejam garantidos os Direitos dos adolescentes e jovens que cumprem medida em programa de internação.

Destarte, afastada a preliminar suscitada.

- Da ilegitimidade passiva do Estado do Rio Grande do Sul

O Estado do Rio Grande do Sul alega não deter legitimidade para figurar no polo passivo da demanda. Para fundamentar sua pretensão, argumenta que a Fundação de Atendimento Socioeducativo possui personalidade jurídica própria, com autonomia administrativa e financeira, cabendo tão somente à Fundação responder na ação.

Sem razão, contudo.

Ora, em que pese a FASE seja pessoa jurídica de direito privado, presta serviço público, sendo mantida pelo Poder Público, consoante artigo 1º, da Lei Estadual nº 11.800/2002, e artigo 1º, do Decreto Estadual nº 41.664/2002:

Art. 1º da Lei Estadual nº 11.800/02 - Fica o Poder Executivo autorizado a criar a Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul, pessoa jurídica de direito privado vinculada à Secretaria do Trabalho, Cidadania e Assistência Social, com autonomia administrativa e financeira, que reger-se-á por esta Lei e estatuto social próprio, mantida pelo Poder Público, segundo os princípios estabelecidos na Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988, e em conformidade com o disposto na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA.

Art. 1º do Decreto Estadual nº 41.664/02 - A Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul - FASE - é pessoa jurídica de direito privado, vinculada à Secretaria do Trabalho, Cidadania e Assistência Social, com autonomia administrativa e financeira, mantida pelo Estado, obedecendo os princípios estabelecidos na Constituição Federal e o disposto na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA -, e regendo-se pela Lei nº 11.800, de 28 de maio de 2002, e pelo presente Estatuto Social, com prazo de validade indeterminado.

Vale esclarecer que o Estado descentralizou a execução do programa estadual de medidas sócio-educativas de internação e semiliberdade à Fundação em voga. Todavia, o fato de o Estado autorizar tal entidade a prestar serviços que caberiam originalmente a ele, o que lhe é permitido, não lhe afasta da titularidade, que continua sendo do Ente. Certo, então, que o Estado do Rio Grande do Sul está legitimado a figurar no polo passivo da presente demanda.

Nesse sentido, o entendimento deste Egrégio Tribunal de Justiça:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. REPRESENTAÇÃO PARA APURAÇÃO DE IRREGULARIDADES. ILEGITIMIDADE PASSIVA. INSUFICIÊNCIA DE SOCIOEDUCADORES PARA ATENDIMENTO DE ADOLESCENTES NA FASE. PEDIDO DE EXTINÇÃO PELA PERDA DO OBJETO DIANTE DO CUMPRIMENTO DA LIMINAR. DESCABIMENTO. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA RECORRIDA. Não há falar em ilegitimidade passiva do Estado do Rio Grande do Sul porquanto a FASE, ainda que fundação de direito privado, presta serviço público e, justamente em razão disso, é mantida pelo ente estatal. Aqui, apartados argumentos de ordem administrativa, os quais se mostram necessários em razão de questões técnicas e até mesmo para a melhor operacionalização de entidade, desburocratizando-a, o certo é que o Estado está legitimado para também figurar no pólo passivo. A hipótese de carência de recursos humanos no CASE de Caxias do Sul reflete, diretamente, na violação de direitos fundamentais dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa, permitindo o cancelamento de consultas médicas, assim como a realização de atividades esportivas e profissionalizantes. Caso em que a insuficiência de socioeducadores para atendimento dos adolescentes contraria as normas do Estatuto da Criança e do Adolescente e as diretrizes estabelecidas pelo SINASE, advindas da Secretaria de Direitos Humanos e pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. No caso concreto, a deficiência no atendimento da demanda era evidente, e os próprios recorrentes, durante toda a instrução processual, informaram que se esforçavam para preencher o quadro pessoal, sem, contudo, alcançarem número suficiente para "representar uma situação ideal". Por conta disso, nada há por ser modificado na sentença de procedência da ação que, ao confirmar os efeitos da antecipação de tutela, determinou que os apelantes providenciassem a remoção da irregularidade representada pelo déficit do quadro funcional do CASE Caxias do Sul. Por fim, a concessão e o cumprimento da tutela antecipada não implica na extinção do processo, como postula a apelante, pois apenas antecipa efeitos pretendidos na inicial, devendo ela ser confirmada ou não, com o julgamento do mérito, como no presente caso. NEGARAM PROVIMENTO AOS APELOS. (Apelação Cível Nº 70071614317, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Rui Portanova, Julgado em 01/12/2016)

Dessa forma, afastada a tese aventada.

- Da nulidade da sentença por ofensa ao disposto no art. 492 do Código de Processo Civil

Ainda em sede prefacial, o Estado do Rio Grande do Sul defende que a sentença é genérica e, dessa forma, ofende o disposto no artigo 492, parágrafo único, do Código de Processo Civil.

Analisando o decisum, não se verifica qualquer ofensa ao dispositivo em voga, o qual prevê que a decisão deve ser certa, ainda que resolva relação jurídica condicional. Isto porque a bem lançada sentença enfrentou todas as questões debatidas no curso do processo e apontou as irregularidades que existem no Centro de Atendimento Socioeducativo de Santa Maria, condenando os demandados a sanarem-nas.

Portanto, não havendo qualquer genericidade na sentença exarada pelo Nobre Julgador, deve ser rechaçada a prefacial.

- Do cerceamento de defesa

A Fundação de Atendimento Socioeducativo suscita a nulidade da sentença por cerceamento de defesa. Sem razão, contudo.

Compulsando os autos, vislumbra-se que os atos processuais necessários à convicção do sentenciante foram realizados, sendo este o destinatário da prova, a quem compete verificar sua suficiência ou não para a resolução da lide.

Com efeito, a exordial foi devidamente instruída com Relatórios idôneos à demonstração do estado do Centro de Atendimento Socioeducativo de Santa Maria. Ainda, foram acostados aos autos, no decorrer do processo, outros Relatórios de Vistoria atualizados quanto à situação do CASE/SM. E mais, a Fundação se manifestou nos autos em cada fase processual.

Assim, não há falar em nulidade do decisum, visto que inexiste afronta ao princípio constitucional da ampla defesa, por omissão do juízo de origem na instrução do feito.

Portanto, imprescindível se faz o afastamento da preliminar suscitada.

MÉRITO

É caso de desprovimento do recurso do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e parcial provimento da apelação da FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO.

O Estado do Rio Grande do Sul invoca o princípio da separação dos poderes e a teoria da reserva do possível, argumentando que a esfera administrativa não comporta intervenção judicial.

Sem razão, contudo.

A Constituição Federal, em seu artigo 227, preleciona que os direitos das crianças e dos adolescentes devem ser protegidos com absoluta prioridade, in verbis:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

O Estatuto da Criança e do Adolescente preceitua, em seu artigo 148, que a Justiça da Infância e da Juventude é competente, dentre outras hipóteses, para conhecer ações decorrentes de irregularidades em entidades de atendimento, aplicando as medidas cabíveis (inciso V), e aplicar penalidades administrativas nos casos de infrações contra norma de proteção à criança ou adolescente (inciso VI).

Com efeito, o presente feito tem por escopo apurar e sanar as irregularidades em unidade para execução de medida socioeducativa de internação. Isto é, versa sobre política pública de responsabilidade do Estado, que afeta diretamente direitos de adolescentes, especialmente àqueles ligados ao princípio fundamental da dignidade humana, previsto no artigo 1º da Constituição Federal.

Assim, diante do princípio do melhor interesse do menor e da proteção integral infanto-juvenil, o Poder Judiciário está legitimado a assegurar o cumprimento da norma constitucional quando as irregularidades decorrentes da atuação do ente público violarem tais princípios, não havendo afronta à harmonia e separação dos poderes. Portanto, afastada a tese defensiva.

No que se refere às normas do SINASE, melhor razão não assiste à Fundação de Atendimento Socioeducativo ao argumentar que não possuem natureza impositiva ou punitiva, afirmando que são tão somente referências.

A Lei nº 12.594/2012 instituiu o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) e regulamentou a execução das medidas destinadas a adolescente que pratique ato infracional (artigo 1º).

Dessa forma, denota-se que a referida legislação tem o condão de obrigar os Estados e, por conseguinte no presente feito a Fundação, a cumprir as regras elencadas no diploma legal em voga. Compete às partes citadas promover a regularização de acordo com a previsão da Lei nº 12.594/2012, inclusive acerca da estrutura do Centro de Atendimento e da capacitação dos funcionários.

Nessa toada, vale trazer a baila a argumentação tecida pelo Ministério Público com atuação na Origem, em sede de contrarrazões, in verbis:

Admitir o argumento trazido em sede de apelação corresponde a esvaziar completamente o Sistema Nacional Socioeducativo, pois daria autonomia para o ESTADO executar o programa de medidas socioeducativas de meio fechado segundo seus próprios critérios.

De outra banda, não olvidamos a crise financeira enfrentada pelo Estado do Rio Grande do Sul. Todavia, este cenário não permite o Ente a manter o Centro de Atendimento Socioeducativo de Santa Maria nas condições em que se encontra, à revelia dos direitos dos jovens internados na instituição, sem perspectiva de saneamento das irregularidades ainda presentes na unidade, mesmo após a instrução do presente feito, que tramita desde janeiro de 2013, ou seja, cinco anos.

Já em relação às medidas para correção das irregularidades existentes na CASE/SM, infere-se que certas providências foram atendidas. Nesse sentido foi a exauriente análise realizada pelo agente ministerial com atuação na Origem, Dr. Antônio Augusto Ramos de Moraes, em sede de contrarrazões, de cujo conteúdo se pede vênia para transcrever excerto (fls. 1144-1154v):

A) Inobservância aos direitos e garantias de que são titulares os adolescentes (art. 94, inc.I, do ECA):

A respeito da alegação no sentido de que a sentença é genérica, não cumprindo os preceitos do artigo 492 do Código de Processo Civil, observamos que a mesma enfrentou todas as questões trazidas na inicial e debatidas no curso do processo, pontuando as irregularidades apontadas e determinando a correção das mesmas, definindo prazo para tanto.

Nesse compasso, não se pode afirmar que a sentença é genérica, ressaltando-se que a mesma não necessita detalhar de que maneira as irregularidades devem ser corrigidas, mas apenas reconhecer se as irregularidades existem e persistem, condenando a FASE para que efetue as correções e fixando prazo para que isso ocorra.

Não olvidamos que ao longo do processo muitas ações foram realizadas, não se verificando, no entanto, a adequação de todas as irregularidades apontadas na inicial.

B) Ausência de atendimento personalizado, em pequenas unidades e grupos reduzidos (art. 94, inc.III, do ECA):

Não se verifica, conforme mencionado no recurso, confusão entre superlotação e realização de grupos operativos e atendimento personalizado, sendo mister ressaltar que tais questões possuem ligação direta, na medida em que a Equipe Técnica prevista para atender a unidade tem como base a lotação máxima, que é de 39 (trinta e nove) internos, havendo evidente defasagem do atendimento em situação de superlotação, realidade com a qual a unidade do CASE/SM convive há muito tempo.

Aliado a isso, o CASE/SM conta com apenas uma Assistente Social na Equipe Técnica, com carga horária de 30 horas semanais, sendo que a outra profissional, que havia sido deslocada do CASEMI para cumprir horas no CASE/SM, atualmente retomou suas atividades em tempo integral na unidade de origem, que também estava com a lotação quase no limite.

Por evidente que nesse quadro os atendimentos individuais, os quais inclusive incluem visitas domiciliares, em Santa Maria e na região, pois se trata de unidade Regional, restam seriamente prejudicados, não sendo possível sequer estabelecer um rodízio de forma a que cada interno receba atendimento quinzenal.

Pertinente esclarecer que a Equipe Técnica não realiza apenas atendimentos individuais aos internos, mas também organiza e realiza os grupos operativos, confecciona os PIAS, os quais demandam tempo considerável, realiza as avaliações semestrais e elabora os relatórios, além de participar das reuniões da unidade, envolvendo gestão e socioeducadores, e das Comissões de Avaliação Disciplinar, sendo evidente que a Equipe Técnica existente não consegue, com o quadro atual, prestar atendimento individual minimamente adequado, tampouco realizar os grupos operativos necessários.

Assim, imperioso reconhecer que as irregularidades apontadas no Item B persistem.

C) Precariedade das instalações físicas do CASE/SM, notadamente acerca da habitabilidade, higiene e salubridade (com destaque para as condições dos banheiros coletivos dos setores), refeitório e equipamentos de segurança (art. 94, inc.VII, do ECA):

A FASE admite a superlotação da unidade, aduzindo que não tem ingerência no ingresso de adolescentes e jovens, pois apenas cumpre as decisões Judiciais que determinam as internações, algo que não se discute, até porque essa configura a principal missão da Fundação, que foi criada para possibilitar o desenvolvimento de programa de execução das medidas de meio fechado.

Ocorre que ao longo dos anos a FUNDAÇÃO e o ESTADO não atentaram para a realidade do aumento da violência juvenil, o que fez com que as vagas disponibilizadas pelo sistema se tornassem insuficientes para o número de adolescentes e jovens em cumprimento de medida, dando causa à atual situação de superlotação do sistema de meio fechado, não só em Santa Maria, como também no Estado como um todo.

Acerca da afirmação de que foram realizadas diversas reformas e que a adequação aos padrões arquitetônicos do SINASE ainda está dentro do prazo estabelecido pela legislação de regência, observamos que efetivamente muitas ações aconteceram, como a reforma dos dois banheiros coletivos, a construção de três novos dormitórios de Atendimento Especial, que conta com pátio específico, a melhoria no sistema de aquecimento de água, a construção de um prédio anexo para a Escola, ainda não concluído, a construção de um anexo para a lavanderia, ainda não concluído, e a reforma parcial da unidade.

Entretanto, ainda estão pendentes a conclusão da reforma interna, a efetiva utilização do refeitório (que já está apresentando sinais de deterioração), a melhoria da quadra de esportes, pois em dia de chuva forte a mesma fica interditada em face das goteiras, isso sem falar na conclusão do muro de entorno, que é objeto de outra ação civil pública, de tramitação ainda mais longa do que a presente.

Nesse passo, resta evidente que algumas das irregularidades apontadas no Item C persistem, necessitando as devidas correções.

D) Inexistência de programas de atendimento específico para adolescentes portadores de transtornos ou deficiência mental (art. 94, inc.IX, do Estatuto da Criança e do Adolescente e arts. 60 e 64 da Lei nº 12.594/2012):

Foi ressaltado que a sentença reconheceu que estão sendo implementadas políticas para sanar as irregularidades, o que leva à improcedência quanto ao tópico.

Ocorre que ainda não foram implementadas políticas na área da saúde para regularizar tais questões, sendo que os internos portadores de transtorno ou deficiência mental não recebem atendimento especializado na unidade, sendo encaminhados para o atendimento prestado pelo SUS.

No entanto, a questão ora versada vai muito além, pois abrange a situação de internos que por conta de transtorno ou deficiência mental não conseguem, sem risco efetivo à saúde e à vida, cumprir medida de internação na unidade, não havendo o atendimento específico exigido pela legislação. Aliás, sequer existe um espaço físico adequado na unidade para que esse interno permaneça custodiado, o que sempre agrava o problema de saúde.

Por conseguinte, a irregularidade apontada persiste, devendo a FASE apresentar o respectivo programa de atendimento específico para adolescentes portadores de transtornos ou deficiência mental, prevendo como ocorrerá o atendimento, bem como definindo a eventual necessidade de espaço físico diferenciado para cumprimento da medida.

E) Insuficiência de atividades culturais, esportes e de lazer (art. 94, inc.XI, do ECA):

Foi destacado pela FASE as atividades rotineiras da unidade, a pretexto de demonstrar que não existe a insuficiência apontada na inicial, sendo mencionado ainda que não houve indicação de quais atividade estariam faltando.

Estamos diante de um dos grandes nós da socioeducação. Pela sua definição e natureza, as medidas socioeducativas possuem conteúdo predominantemente pedagógico, o que nos leva a concluir que na execução também devem ser disponibilizadas atividades culturais, esportivas e de lazer, possibilitando maior convívio entre os internos, em detrimento do tempo no dormitório.

Ocorre que tais atividades, em que pese oferecidas, estão aquém do necessário, não se observando por parte da FASE efetivo empenho ou envolvimento para alterar essa situação. Basta observar as atividades listadas nas fls.1.133 e 1.134 para concluir não são suficientes para atender a população da unidade, que ultimamente tem oscilado para além de setenta internos.

Conforme reconhecido na sentença, a irregularidade persiste.

F) Ausência de gestão democrática e participativa como assembleias e grupos de trabalho propostas pelo SINASE (Lei nº 12.594/2012):

Foram destacados os grupos operativos realizados, ressaltando-se que a sentença, ao enfrentar o Item B, reconheceu a existência de tais grupos.

Ocorre que, conforme admitido pela FASE, tais grupos não são voltados para a gestão democrática e participativa, sendo constituídos com propósitos distintos, como realizar círculos restaurativos, debater a cultura de paz, entre outros, o que leva a concluir que a irregularidade apontada persiste.

G) Não realização de levantamento periódico de reincidência e causas determinantes (art. 25 da Lei nº 12.594/2012):

Ressaltou-se que a sentença reconheceu que a FASE, dentro de suas possibilidades, vem realizando levantamento periódico para verificar a reincidência pelos internos, o que também levaria à improcedência quanto ao tópico.

Não obstante, a questão está longe de ser resolvida, pois demanda sistematização e implementação de sistema informatizado, que permita identificar situações de reincidência e suas causas, possibilitando o enfrentamento no âmbito do sistema, não apenas para fins estatísticos, mas também em prol dos internos e de ações coletivas voltadas a enfrentar as causas da reincidência no âmbito dos territórios de onde os internos são provenientes.

O programa de informática denominado SIPIA se propõe a trabalhar tais questões, mas o mesmo simplesmente não está disponibilizado para a totalidade do Estado e não funciona a contento, não havendo um sistema apto a trabalhar com tal questão.

Em não havendo programa de informática adequado, evidentemente que não é possível a realização de levantamento periódico de reincidência e causas determinantes.

I) Insuficiência de recursos humanos e inexistência de formação continuada dos servidores quanto à capacitação (art. 94, inc.IX, do ECA, Art. 11, incisos IV e VI, e 12, da Lei nº 12.594/2012):

Foi ressaltado que a Assistente Social do CASEMI está cumprindo parte de sua carga horária no CASE, com o intuito de minimizar a deficiência do profissional do Serviço Social, bem como que os servidores estão recebendo capacitação continuada, pontuando-se que a sentença reconheceu que a FASE está proporcionando capacitação aos novos servidores.

Enfrentamos o tema parcialmente no item B, abordando a questão da Assistente Social, análise a qual reprisamos, destacando que o CASE/SM conta com apenas uma Assistente Social na Equipe Técnica, com carga horária de 30 horas semanais, sendo que a outra profissional, que havia sido deslocada do CASEMI para cumprir horas no CASE/SM, atualmente retomou suas atividades em tempo integral na unidade de origem, que também estava com a lotação quase no limite.

Por evidente que, em face das deficiências de pessoal, os atendimentos técnicos restam prejudicados, não sendo possível sequer estabelecer um rodízio de forma a que cada adolescente receba no mínimo atendimento quinzenal – ressaltando-se que se faz necessário, pela característica da população, o atendimento semanal.

Novamente destacamos que a Equipe Técnica não realiza apenas atendimentos individuais, mas também organiza e realiza os grupos operativos, confecciona os PIAS, os quais demandam tempo considerável, realiza as avaliações semestrais e elabora os relatórios, além de participar das reuniões da unidade, envolvendo gestão e socioeducadores, e das Comissões de Avaliação Disciplinar, sendo evidente que não consegue, com o quadro atual, aliado à superlotação, prestar atendimento individual minimamente adequado.

Acerca da capacitação continuada, imperioso reconhecer que a FASE está proporcionando capacitação aos servidores.

Assim, imperioso reconhecer que parte da irregularidade apontadas no Item I persiste.

J) Inobservância do disposto na legislação quanto à elaboração dos Planos Individuais de Atendimento – PIA (artigo 54 da Lei nº 12.594/2012):

Foi ressaltado que o PIA é confeccionado pela Equipe Técnica, bastando que o Juízo devolva à unidade para complementação no caso de ser observada omissão ou irregularidade.

No particular, assiste razão à FASE, pois os PIAS elaborados na unidade do CASESM estão adequados ao SINASE, inclusive adaptados ao novo PEMSEIS, não persistindo a irregularidade.

L) Inexistência de visitas íntimas (art. 68 da Lei nº 12.594/2012):

Foi destacado que se trata de norma do SINASE, que depende de regulamentação acerca do aludido direito. Também foi pontuado que na unidade não existe espaço físico para que a visita íntima ocorra.

Relativamente ao tema, entendemos que também assiste razão à FASE, não sendo minimamente razoável, sem regulamentação especifica, instituir visitas intimas em unidade sem qualquer estrutura física para tanto, ainda mais em se tratado de uma população cuja maioria é de adolescentes.

M) Imposição de sanção disciplinar sem a instauração de processo disciplinar e sem observar a ampla defesa e o contraditório (art. 71, inciso II, e 74, da Lei nº 12.594/2012):

Foi destacado que a sentença reconheceu que as irregularidades observadas quando do ajuizamento da ação não persistem, mencionando-se que toda punição é precedida de uma Comissão de Avaliação Disciplinar. Também foi destacado que o procedimento é remetido ao Juízo para homologação, bastando, no caso de irregularidade, não homologar e adotar providências em face da direção da unidade.

Mais uma vez assiste razão à FASE, destacando-se que foi estabelecido procedimento especifico, com a garantia do direito à ampla defesa, regulamentado pela Resolução n.º 05/2012-FASE, para apuração das faltas disciplinares e aplicação das sanções, tendo ocorrido alteração na aludida Resolucao no ano de 2017.

Destarte, restando sanadas as irregularidades apontadas nos itens “J, L” e “M”, impõe-se a parcial procedência do recurso interposto pela Fundação de Atendimento Socioeducativo neste ponto.

Por derradeiro, no que tange ao pleito de afastamento da possibilidade de interdição e remoção dos jovens acolhidos para outras unidades, novamente sem razão o Estado do Rio Grande do Sul.

Com efeito, as entidades que desenvolvem programas de internação possuem diversas obrigações, elencadas no artigo 94 do Estatuto da Criança e do Adolescente. O mesmo diploma legal prevê a aplicabilidade da medida em voga diante do descumprimento dessas atribuições, consoante disposição do artigo 97, inciso I, alínea d:

Art. 97. São medidas aplicáveis às entidades de atendimento que descumprirem obrigação constante do art. 94, sem prejuízo da responsabilidade civil e criminal de seus dirigentes ou prepostos:

I – às entidades governamentais:

a) advertência;

b) afastamento provisório de seus dirigentes;

c) afastamento definitivo de seus dirigentes;

d) fechamento de unidade ou interdição de programa.

Portanto, afastada a tese defensiva, devendo ser mantido o decisum neste ponto.

Ante o exposto, o Ministério Público, nesta instância recursal, manifesta-se pelo CONHECIMENTO dos recursos, pelo DESPROVIMENTO da irresignação do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e pelo PARCIAL PROVIMENTO da apelação da FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO, nos termos da fundamentação.

É o parecer.

ISTO POSTO, afastadas as preliminares, nego provimento ao recurso do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e dou parcial provimento ao recurso DA FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SOCIO-EDUCATIVO.

Des.ª Liselena Schifino Robles Ribeiro - De acordo com o (a) Relator (a).

Des.ª Sandra Brisolara Medeiros - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. JORGE LUÍS DALL'AGNOL - Presidente - Apelação Cível nº 70075932012, Comarca de Santa Maria: "NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO DO ESTADO E DERAM PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO DA FASE. UNÂNIME."

Julgador (a) de 1º Grau: MARLI INES MIOZZO